quinta-feira, 28 de abril de 2011

ACORDA HUMANIDADEEEEEEE!!!

Eis a pergunta recorrente de alguns curiosos sobre o curta: ‘’porque Joelma?’’

Somos condicionados a viver presos em estruturas conservadoras, que nos leva a repetição de ações e a busca da padronização. Com isso, passamos a vestir uniformes e somos classificados de acordo com as características da roupa que usamos. Traduzindo: Querem nos limitar. Não levam em consideração a nossa subjetividade, nossa particularidade.

Não caros leitores, não se trata de um debate sobre a Psicologia Social, mas sobre a sexualidade humana pois, no planeta terra, aquele que for homem, branco, heterossexual, bem sucedido, cabelos lisos e olhos claros, é o sujeito dominante ou o protagonista da novela global.

Domam nosso corpo, repetindo teorias antigas para nos ensinar a atuar no filme das nossas vidas. Aqui na Brasil, especificamente novela, pois é a estrutura narrativa dominante. Nada contra elas. Mas nos dias de hoje, ainda não exibem cenas de beijo entre pessoas do mesmo sexo.  Quiçá, o protagonista ter uma sexualidade diferente da heterossexual.

Mas não é a telenovela o entrave e sim, ou melhor, é principalmente o modus operandi do cristianismo (extensivo às simpatizantes), religião que tem a maior quantidade de seguidores no mundo. Mesmo havendo diversas possibilidades de sexualidades (a.C, durante e d.C) e até de alguns pesquisadores cogitarem a possibilidade de Jesus ter sido homossexual, tal assunto é considerado abominável por essa e outras religiões. E para eles, ou você aceita este modelo, ou está excluído do grupo.

Durante as gravações, lembro de uma situação interessante. Meu sobrinho de 10 anos, foi figurante de uma sequência, na qual Joelma (Fábio Vidal) e Antônio (Ruy Manthur) se beijam. De repente, no final da ação, ele me diz: ‘’tem que beijar de verdade não é?’’ Eu disse, ‘’sim, meu tio, senão não vai parecer que é de verdade’’, ele retrucou, ‘’mas são dois homens’’, eu disse, ‘’não, ela era um homem, mas tirou o pinto e virou mulher, porque desde criança, sempre acreditou, sentiu e pensou como uma mulher’’ e ele ficou com um olhar distante, pensativo e voltou para a sua posição esperando a próxima tomada.  

Criança tem uma mente tão fértil, que nem imagino o que foi que se passou em sua cabeça. O fato é que a maioria não se dá ao trabalho de pensar sobre o tema. Aceitam suas verdades como absolutas. Espero que aquilo seja um empurrão para que ele possa entender a diversidade do ser humano e aprender a viver em harmonia com o diferente.

Hoje, no mundo do bullying, homofobia e do desrespeito aos cidadãos que são sufocados por essa estrutura fechada, a voz do oprimido ecoa, ecoa, ecoa, ecoa, ecoa e aos poucos chega ao seu destino, soando como um grito de alerta, de angústia, insatisfação e raiva, ao pronunciar como o Superoutro: ACORDA HUMANIDADE!!!

Saia da zona de conforto e coloque sua cabeça para trabalhar. Afinal, a única diferença entre você e um burro (com todo respeito a eles), é que você é um animal racional (e o burro não é homofóbico). Se quiser ver mudança mesmo, vista sua roupa de Joelma e vá à luta. Pensar às vezes é dolorido, mas faz parte do nosso processo de evolução. Joelma entendeu e por isso ela é a nossa protagonista curta.

Agora vos faço a pergunta caros leitores: ‘’porque não?‘’


PS.: O texto que foi publicado aqui precisou ser excluído. A censura proibiu. Então, dedico apenas à falsa democracia em que vivemos. Em breve homofobia vai dar em cadeia!!!


Foto: Marie Thauront

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sonho que se sonha só?


Há duas semanas começamos o período mais longo de Joelma. A pós-produção. Se bem que, pelas bandas de cá, fazer um filme, seja ele longa,  curta ou média-metragem é sempre um longo processo. As estatísticas dizem que um filme de longa-metragem demora cerca de 07 anos para ficar concluído no Brasil.

Diga-se de passagem, isso não é um condicionamento que parte exclusivamente de instituições feitas de concreto e pilhas de papel, mas também de instituições físicas, feitas de carne e osso. O processo está aí, limita-se a ele quem quer. O sonho de ver as coisas funcionando, não pode morrer.

Assim, partimos para a terceira semana de montagem. Nas anteriores, juntamente com Íris de Oliveira (montadora), fizemos as seleções das imagens que nos agradavam e de prováveis imagens que poderemos utilizar  para tornar o mundo de Joelma o mais verossímil possível, uma vez que a história dela se assemelhe mais à coisa de cinema. Partimos agora à montagem por sequência, observando quadro-a-quadro, tudo aquilo que nos interessa.

Seguindo a cronologia dos fatos, na imagem temos Joelma (Fábio Vidal) ainda na década de 70. Período em que encontra seu futuro marido, Antônio (Rui Manthur), catando lixo na porta de sua casa. Paixão à primeira vista. A partir de então, Joelma dá casa, comida, roupa lavada e muito mais a Antônio.

E deste encontro, surgem bons frutos. Antônio chega e com ele vem Rosemary (Elisabeth), além de um estímulo maior para que ela faça a sua tão sonhada cirurgia.

Como boa vidente e nas horas vagas, conselheira, Joelma vos fala que nós determinamos a nossa vida e que não há força maior nesse mundo, que a interior. É ela que nos motiva a sonhar. Porque sonho que se sonha junto, é cinema.

Foto: Gabriel Trajano

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Moça Bonita!

Desde a primeira postagem abordo a tortura que é pensar Joelma. A tortura ainda continua devido às incertezas da vida. Mas, se fosse fácil, não teria graça.

E mesmo num espetáculo ou filme, com um roteiro pré-definido, sempre há espaço para o improviso. O amigo Veras dizia que “a vida não é aquela coisa que você planeja. A vida é o inesperado.” 

Para tentar aliviar a ansiedade, comecei a assistir algumas imagens brutas durante a semana e pensar em possibilidades na montagem. Notei que preciso trabalhar ainda mais o desapego a elas, apesar de não temer a faca que vai cortar o mal pela raiz, pois são muitas imagens bonitas.

Na imagem, lá pela década de 70, após se mudar para Salvador, Joelma começa a fazer shows como forma de sustento, além de juntar seu dinheiro para fazer a cirurgia. Todos os fins de semana, a Moça Bonita apresentava seu espetáculo na Boate Anjo Azul, dublando Ângela Maria, cantora que lhe inspira desde a infância. O palco, para ela é sagrado. Aqui, Joelma se entrega à música como se estivesse num altar.

É quando ela usava seu melhor vestido, salto alto, peruca, maquiagem, batom forte na boca, unhas pintadas, quadril e peito com espuma. Fazia de tudo para viver o sonho de ser uma mulher com todo o glamour que merecia.

Mas tudo aquilo continuava sendo um sonho. Era preciso ter muita paciência e dedicação para poder fazer sua cirurgia. E o uso correto da faca é essencial para o sucesso desse espetáculo.


Corta!


Foto: Edson Bastos