quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

De Mapele à Ipiaú

Do lado de cá, novidades o tempo inteiro. Terminamos de filmar em Mapele ontem. Durante três dias intensos, cansativos e muito prazerosos, Joelma se tornou a rainha do local. Para tanto, chegamos a ficar acordados por aproximadamente 24 horas. Tudo pela sétima arte.

Utilizamos essa afirmação como prerrogativa de tanto empenho e esmero de toda a equipe. Só isso justifica.  Muito profissionalismo e competência traduzem bons resultados. É o que tem ocorrido. As imagens estão belíssimas.

Aproveitando o adendo, perdoem-me os tradicionais, mas observar um filme como uma propriedade intelectual individual, atribuída ao Diretor, é uma perspectiva limitada e excludente. São diversos profissionais, com atuações distintas, em constante processo de criação. Portanto um filme é de todos, afinal é a arte do coletivo.

Sendo assim, abandonamos formulários, planilhas e botões, encarando todas as possibilidades de concepção da mise en scéne, entendendo que um dos maiores desafios de Joelma é o de imprimir uma caracterização que se baseia no realismo, e assim reproduzir uma reconstituição histórica verossímil ao olhar do espectador.

É desta forma que todos os departamentos adentram cada vez mais no universo de Joelma, buscando entendê-la melhor para, a partir de então, encontrar as soluções possíveis. Afinal, durante o set temos diversas limitações e imposições, que até mesmo o melhor planejamento possível, não pode prever.

Na foto, a equipe se prepara para filmar a sequência do crime. Atuação exímia, arte impecável, fotografia linda, maquiagem e figurino perfeitos, continuidade atenta, produção sempre ativa, sonorização afinada e direção a cantar: luz, câmera, som, ação e corta.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

O tempo é chegado!

Ordem do dia! Acordar às 04 da manhã, reunir equipe e começar as filmagens de Joelma. 

Aproximadamente 30 pessoas se encontrarão durante 09 dias para mostrar toda dedicação prestada em pouco mais de 02 meses de pré-produção.

Equipe afinada, muito responsável, que transmite tranqüilidade e sempre propõe soluções. Este é o resumo. Agora é momento de colocarmos em prática tudo o que definimos nesse período.

Não quero me estender em palavras, deveria me resguardar ao set, mas por respeito a você, caro leitor, que também faz parte desse processo, escrevo para dizer que os próximos dias serão inesquecíveis a todos nós.

Começaremos com a cena da partida. Joelma, com as pernas mexendo de ansiedade, sentada no banco, ao lado de sua mãe Janaína, espera a rural da Empresa Brasil de Transportes que a levará a Salvador. Assim como Joelma, esperaremos o ônibus para nos levar ao nosso destino, em busca da concretização desse sonho.

Até o próximo ponto!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Corpo e mente em busca da libertação.

É no domínio sobre o corpo que residem às relações de poder. A paráfrase de Foucault me fez pensar em Joelma e nas instâncias que permeiam essas relações. A igreja, a família, a polícia, a sociedade, todas, de alguma forma, estão envolvidas neste processo contínuo que é o de domar nosso corpo e torná-lo dócil.

Joelma encontra no domínio do seu corpo, a libertação. Mas, fato importante é que corpo e mente não se dissociam. Precisam estar em harmonia, um escutando o outro, sempre. Então, o domínio da mente é fundamental para a libertação. Ou seja, você pode ser o maior castrador ou libertador de si mesmo. Partamos em busca do autoconhecimento.

Para fazer uma mudança de sexo, é preciso ter certeza do que se quer. Provocar interferências em seu corpo, mudar comportamentos, pensamentos e sentir todas as dores provenientes desse processo. Quem tem sangue frio, pode pesquisar no Google como se faz a mudança e vai se deparar com imagens impactantes. Hoje, para realizar a cirurgia, é preciso ter um acompanhamento psicológico (antes e depois), tomar hormônios, até chegar o grande dia. Hoje também, é possível fazer a cirurgia pelo SUS. Fica a dica!

O processo de mudança de Joelma foi feito entre a década de 70 e 80. Época em que ainda era muito precária e pouco especializada esse tipo de cirurgia. Fontes me informaram que, para bombar (colocar silicone industrial nos seios e bunda), travestis e transexuais usavam entorpecentes para sedá-las e assim suportar a dor da beleza. Nossa Joelma não precisou de tanto. Ficou num corpinho curvilíneo com a ajuda dos truques do figurino de Diana Moreira.

Assim, nos aproximamos cada vez mais da nossa cirurgia. Estamos a uma semana das filmagens. Então, procuramos a harmonia entre corpo e mente, agindo constantemente em busca da libertação. O dia D, se aproxima. Mais de quatro anos de pesquisa condensados em meses de preparação e armazenados em minutos de imagens em movimento. 

Ou seja, Joelma também é aprisionamento e castração.

Sessão autoajuda: Aquele que domina sua mente é capaz de tudo.

PS.: Inconscientemente, Joelma está sempre presente. Vide detalhes da imagem anexa.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O mistério das treze almas.

Concentração.

Entrando em transe.

...

Começo a ver vultos. Não de ansiedade. Mas das 13 almas. Queriam chamar minha atenção para algo. Não ouvi. Bateram a porta com força. Queriam seu papel de direito no filme. Não bastava apenas ser figurante. Imaginem treze almas histéricas, gritando em seu ouvido. Não... Esqueçam! Vamos às afirmativas.

Tentei me aproximar um pouco delas para entender sua onomástica. A internet me ajudou a voltar no tempo.

Descobri que as 13 almas podem ser de três grupos diferentes. O primeiro refere-se aos 12 apóstolos + Jesus. O segundo está associado à tragédia no Edifício Joelma. O terceiro, segundo a própria Joelma, foram de treze feiras que desencarnaram perto da ponte pequena. Não sei onde fica... O importante é que todos são bons e fazem milagres. Assim espero!

Algumas pessoas já haviam me perguntado se o curta abordava a história do Edifício Joelma. E agora respondo com propriedade: Em partes. Descobri que durante o incêndio, causado por um curto-circuito, que aconteceu na sexta-feira, dia 01/02/1974 no Edifício Joelma, 13 pessoas entraram no elevador às 08:45h da manhã, tentando fugir do fogo, e acabaram morrendo carbonizados. Nunca descobriram os nomes das vítimas, que foram enterradas como indigentes no Cemitério São Pedro, em São Paulo, um ao lado do outro, recebendo em sua lápide a alcunha de 13 almas.

Pessoas vão à Capela das 13 almas e ao cemitério para orar, fazer pedidos, agradecer vitórias, dividir angústias. Porém elas não são reconhecidas pela Igreja Universal Católica Apostólica Romana, como santos. Bom, mas isso não é motivo para as pessoas deixarem de acreditar em algo.

Importa é que desde então, passei a entregar o milheiro da oração das 13 almas para ter a garantia de que tudo sairá conforme o planejado. Não custa nada tentar e você pode contribuir fazendo o mesmo. Podem usar a internet, será mais ecológico. Às 13 horas, 13 minutos e 13 segundos, do 13º dia após o envio da oração, seu pedido será realizado.

Depois dessa viagem, retornaremos ao corpo em 05 segundos........................................Pronto!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

03 de fevereiro de 1974.

Procuro referências para escrever o texto e não faltam possibilidades, diante de tantas novidades. Roteiro técnico definido; plano de filmagem elaborado; locações fechadas; objetos escondidos no fundo do baú, que são cutucados com a ajuda das novas tecnologias; atores em constante descoberta dos seus personagens e por aí vai...

Porém, cito um fato interessante, que me fez pensar em outros. Durante a semana, reproduzimos um objeto de cena: uma foto de Antônio e Joelma. 

Imediatamente lembrei Rubem Alves, psicanalista e escritor, metaforizando o retrato. Afinal, contra a foto, não há argumentos. Ela é a representação do real e muito mais que isso.

Ele diz: “É mais fácil amar o retrato. Eu já disse que o que se ama é a ‘cena’. ‘Cena’ é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena. Antes de te conhecer eu já te amava.... E então, inesperadamente, nos encontramos com rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados.”

Eis que Joelma e Antônio afirmam sua união. E a foto é a prova disso.

Afinal, em qual contexto ela se tornou real? O que pensavam no momento? Colocaram suas melhores roupas? Planejaram durante semanas? Em qual data foi tirada? Quem tirou? Onde? No momento do clique, em minha frente, Joelma (Fábio Vidal) e Antônio (Rui Manthur) adentravam no universo da fotografia. Ela, ainda nova, encontra o seu parceiro, ex-mendigo e passam a viver juntos. Na foto, alguns anos se passaram.


Pena que, tudo tem um fim, e nessa história, restará apenas a foto para recordação.

Seguimos nessa semi-ótica, encontrando respostas para criarmos imagens ao seu imaginário, caro leitor. 


Até breve!